A estética do sucesso e o custo emocional de parecer bem: o impacto do trabalho emocional no burnout corporativo
- Hélio Salomão Cordoeira
- 4 de nov. de 2025
- 5 min de leitura
A síndrome da performance estética está transformando a cultura corporativa em vitrine e o preço da imagem perfeita é o esgotamento emocional. A cultura da imagem e o trabalho como vitrine
Em um mundo onde o trabalho se confunde com identidade, o valor profissional passou a ser medido tanto pela entrega quanto pela aparência de equilíbrio.O ambiente corporativo exige não apenas resultados, mas também expressões calibradas: otimismo, resiliência, entusiasmo — mesmo quando o corpo e a mente pedem pausa.
A série Emily in Paris traduz esse fenômeno com precisão estética. Emily é competente, criativa e dedicada, mas precisa estar sempre perfeita — nas roupas, nas ideias e nas emoções. Sua performance visual é parte do trabalho. O brilho da imagem substitui o peso do esforço.
No ambiente corporativo, essa mesma lógica aparece na pressão por manter uma “presença positiva” — o sorriso automático nas reuniões, a energia constante em meio à sobrecarga, a falsa tranquilidade diante de metas inalcançáveis. É o retrato da síndrome da performance estética: o esgotamento de quem vive para sustentar uma imagem.
Trabalho emocional e o custo de parecer bem
Por trás do discurso da leveza e da alta performance está uma engrenagem complexa: o trabalho emocional.O termo foi cunhado pela socióloga Arlie Hochschild em 1983, para descrever o esforço de regular sentimentos e expressões com o objetivo de cumprir as expectativas do papel profissional.Em profissões que exigem contato interpessoal — de executivos a enfermeiras, de gestores a atendentes — a emoção também é uma entrega.
O problema é que, quando o controle emocional se torna uma norma implícita, ele deixa de ser um gesto de empatia e vira um mecanismo de defesa.Fingir calma, esconder cansaço, disfarçar frustração: o surface acting (atuar superficialmente) transforma o afeto em ferramenta de produtividade.
Pesquisas da Harvard Business Review mostram que essa dissociação entre o que se sente e o que se expressa tem efeitos mensuráveis:
Aumento da fadiga cognitiva e emocional;
Diminuição da satisfação no trabalho;
Queda da criatividade e do engajamento.
O MIT Sloan Management Review descreve esse fenômeno como “o custo cognitivo da curadoria”: a sobrecarga mental de quem precisa ajustar o próprio comportamento, tom de voz e postura emocional para se encaixar na cultura dominante.Em ambientes de alta pressão, isso se converte em um tipo de esforço invisível — a manutenção da imagem emocional adequada — que compete com a energia dedicada à performance real.
Em outras palavras: enquanto fingimos estar bem, deixamos de estar disponíveis para pensar, criar e liderar de verdade.
E o efeito é cumulativo.Estudos mostram que, quanto mais prolongado o surface acting, maior o risco de despersonalização, cinismo e burnout. A desconexão entre o “eu profissional” e o “eu real” torna-se tão profunda que o sujeito passa a interpretar a si mesmo como personagem uma estratégia de sobrevivência emocional que mina o senso de propósito.
A síndrome da performance estética é, portanto, o desdobramento contemporâneo do trabalho emocional.Se antes fingíamos emoções para servir melhor, agora o fazemos para pertencer melhor. O problema é que a busca por pertencimento, quando mediada por aparências, cria ambientes de alto custo psíquico e baixo vínculo humano.
Dados que revelam o esgotamento estético
A ciência já demonstra o impacto dessa cultura de imagem sobre a saúde mental no trabalho e os números são alarmantes.
Segundo o relatório State of the Global Workplace 2024, da Gallup, 44% dos profissionais afirmam sentir níveis de estresse diários significativos o maior índice desde o início das medições.Apenas 23% declaram estar engajados com o trabalho, enquanto 59% se consideram “não engajados” e 18% “ativamente desengajados”, ou seja, emocionalmente distantes das tarefas que executam.
Esses dados não representam apenas desmotivação: são indícios de exaustão emocional sistêmica.O excesso de estímulos, a exposição constante e a confusão entre identidade pessoal e profissional transformaram o trabalho em um ambiente de vigilância estética e afetiva.A aparência de estabilidade tornou-se uma obrigação social um marcador de valor profissional.
No Brasil, o quadro é ainda mais grave.A pesquisa Global Health Service Monitor 2023, da Ipsos, mostrou que a saúde mental é a maior preocupação dos brasileiros, superando inclusive a violência e o desemprego.Relatórios da Vittude (2023) indicam que cerca de 35% dos trabalhadores brasileiros relatam sintomas de burnout avançado.E, em levantamentos da Datafolha sobre saúde emocional corporativa, a maioria dos profissionais afirma sentir que não pode demonstrar fragilidade diante de seus líderes, sob o risco de ser percebido como incapaz ou “instável”.
Essa cultura da invulnerabilidade emocional gera o que chamamos de esgotamento estético: o cansaço de parecer equilibrado o tempo todo.Ele se manifesta em três camadas:
Cognitiva — o esforço contínuo de autopresentação e autocontrole;
Afetiva — a distância entre o que se sente e o que se expressa;
Social — a competição silenciosa por aceitação e pertencimento.
O resultado é paradoxal: as mesmas organizações que promovem campanhas de bem-estar exigem dos colaboradores uma performance emocional impossível de sustentar.O discurso do equilíbrio se torna ele próprio uma fonte de pressão.
Da performance à cultura de cuidado
O desafio contemporâneo não é apenas aumentar a produtividade, mas redefinir o que significa performar.Empresas que confundem aparência de engajamento com saúde emocional acabam incentivando a superficialidade e reprimindo a vulnerabilidade exatamente o oposto da segurança psicológica que promove inovação.
É nesse ponto que entra a Engenharia de Emoções: um campo que une ciência e gestão para compreender o que a cultura mascara.Mapear fatores de risco psicossocial, identificar padrões de desgaste e transformar esses achados em políticas de cuidado é mais do que conformidade com a NR-1 — é um passo para reconstruir o significado do trabalho.
A verdadeira maturidade organizacional não se mede por programas de bem-estar, mas pela coerência entre discurso e prática emocional.Cuidar deixou de ser uma política é uma competência estratégica.
Conclusão: o valor de ser real
A estética do sucesso é sedutora porque parece eficiente. Mas a longo prazo, é disfuncional.O que o ambiente de trabalho mais precisa não é de profissionais perfeitos, mas de contextos que acolham o real com pausas, imperfeições e vulnerabilidade.
A síndrome da performance estética é o espelho de uma cultura que confunde coerência com aparência.Superá-la exige mais do que discursos sobre bem-estar: exige diagnóstico, dados e coragem emocional para rever o que se mascara.
Na Althea, chamamos isso de Engenharia de Emoções a ciência de transformar percepção em prática, estética em verdade e cuidado em cultura.
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Referências
HOCHSCHILD, Arlie Russell. The Managed Heart: Commercialization of Human Feeling. Berkeley: University of California Press, 1983.
IBARRA, Herminia. The Authenticity Paradox. Harvard Business Review, 2015.
GALLUP. State of the Global Workplace Report 2024.
IPSOS. Global Health Service Monitor 2023.
VITTUDE. Relatório de Saúde Mental nas Empresas 2023.
MIT SLOAN MANAGEMENT REVIEW. Managing the Hidden Workload of Impression Management, 2022.
DATAFOLHA. Saúde Mental nas Empresas Brasileiras, 2023.
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